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Arquivo da Categoria Direto de Miami

terça-feira, 23 de outubro de 2012 Direitos Humanos, Direto de Miami, Educação, Entrevistas, Imigração, Miami, Sem categoria | 09:09

Brasileira revela os motivos do intenso fluxo migratório para a Flórida

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Por Chris Delboni | Coluna Direto de Miami (http://diretodemiami.ig.com.br)
Fotos de Carla Guarilha

Valéria Magalhães estudou em escola pública toda sua vida, na periferia da zona leste de São Paulo, para onde seus pais migraram na década de 60.  O pai  havia deixado o Maranhão e a mãe, Minas.

“Não tenho uma formação brilhante”, diz Valéria, que superou os obstáculos de uma educação primária e secundária relativamente fraca e criou sua própria – e brilhante – trajetória acadêmica.

Valéria no quarto do hotel Hampton Inn, de Coconut Grove. Foto de Carla Guarilha.

Hoje, socióloga, doutora em História Social e docente da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, ela esteve aqui em Miami na semana passada para lançar seu livro: “O Brasil no Sul da Flórida: Subjetividade, identidade e memória”, publicado e lançado no ano passado no Brasil, pela editora Letra e Voz.

Valéria diz que não sabe se seu interesse por questões migratórias vem da história de seus pais, mas ela tem absoluto fascínio pelo tema.

“Sempre tive uma paixão pelas viagens e pela imigração, não só como objeto de estudo”, diz ela.  “Sempre fiquei fascinada com o fato da pessoa sair do lugar dela e às vezes não voltar, ficar longe de tudo e de todos”.

O livro, resultado de sua tese de doutorado, inclui 40 entrevistas feitas com brasileiros entre 2002 e 2006 nos condados de Miami-Dade e Broward.

“Cada história que ouvia era incrível”, diz ela.

Um dos capítulos conta o caso de um gay que conseguiu asilo político alegando às autoridades americanas que corria risco de vida no seu país de origem pela sua preferência sexual.  Outro conta a história de uma go go girl que se tornou garota de programa.  “Quando entrevistei, ela estava atendendo no hotel. Ela deu a entrevista nos intervalos.  Foi uma história, metodologicamente falando, bastante curiosa”.

Mas o que mais lhe surpreendeu foi o depoimento sobre um casamento para obter os papéis de imigração e condição legal como imigrante nos Estados Unidos, que custou R$18 mil.   “Era uma exploração muito grande da pessoa que vendia o casamento.  Fiquei meio surpresa com aquilo e quanto as pessoas se desdobravam para conseguir esse documento, o que elas aguentavam para se legalizarem aqui nos Estados Unidos”.

A noite de autógrafos foi na pizzaria Piola em South Beach, onde Valéria recebeu mais de 40 pessoas, entre velhos amigos e novos imigrantes.

“Eu acho que tem mais brasileiros chegando para abrir negócios aqui ou investir, aproveitando a situação econômica brasileira e as taxas de juros americanas”, diz. “Esse não é um fenômeno novo, mas sazonal, que acompanha conjunturas específicas dos dois países”.

Valéria aproveitou sua visita a Miami agora também para dar início ao seu próximo projeto, que deve ter duração de dois anos.  Será uma pesquisa extensa sobre gays brasileiros na Flórida, uma parceria com Steven F. Butterman, diretor do Programa de Estudos de Gênero e Sexualidade na Universidade de Miami e autor de “Vigiando a (in)visibilidade:  Representações midiáticas da maior parada gay do planeta.”

“Esses grupos, como gays, que não são estereótipos da imigração, quebram os paradigmas, de que a imigração brasileira para o exterior é só por causa das questões econômicas”, diz ela.  “É também.  Mas na Flórida, essa imigração tem muitas outras razões, muitas outras explicações e, historicamente, é diferente do resto”.

Foto de Carla Guarilha

Dez anos se passaram desde o começo da pesquisa e a catedrática da USP diz que pouca coisa parece ter mudado, mas é isso que ela está voltando para comprovar.

“A hipótese principal agora é que, com a crise [econômica], os fluxos migratórios não se alteraram.  Essa imigração continua tão importante quanto era –  o que mais uma vez reforça meu argumento de que só a economia não explica a imigração [brasileira]”.

Ela diz que apesar das diferenças sociais, culturais e econômicas, foram razões subjetivas que fizeram com que esses brasileiros se mudassem para Flórida.

“A razão econômica é fundamental mas não vai sozinha e é a mais fácil de você declarar”, diz ela.  “Nenhuma razão estrutural se sustenta sem as questões subjetivas.  A decisão de sair do país é tão difícil de tomar que você precisa de um impulso pessoal que te ajude a tomar essa decisão”.

E isso vale para a pesquisadora também.

“Eu adoro a Flórida.  Venho aqui e fico com vontade de ficar um tempo”, diz ela.

Mas agora não é mais estudante de doutorado e seus compromissos de pesquisas no Brasil lhe impedem de passar períodos mais longos como fez 10 anos atrás.  Ela pretende vir por períodos curtos cada vez para atualizar os estudos.

Valéria diz que seu maior desafio foi e continua sendo convencer os colegas que Miami é um “objeto importante de pesquisa”.

“Esse brasileiro mais metido a intelectual – o brasileiro mais voltado para questão das artes, da intelectualidade — não gosta de Miami”, diz Valéria. “Miami é visto como o lugar das compras, lugar brega, mas insisto que é interessante estudar isso aqui.  Há uma carência enorme de estudos sobre a Flórida.”

No video, Valéria conta em menos de 60 segundos o segredo do seu sucesso:

Brasileira lança livro sobre imigração brasileira em Miami. from Chris Delboni on Vimeo.

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terça-feira, 16 de outubro de 2012 Direto de Miami, Economia, Imigração, Miami, Negócios | 09:30

Banco brasileiro chega com tudo nos Estados Unidos

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Por Chris Delboni | Coluna Direto de Miami (http://diretodemiami.ig.com.br)

Há quase 30 anos, precisamente no dia 1/12/82, Leandro Martins Alves pisava os pés, pela primeira vez, no Banco do Brasil, como engenheiro.

Ontem, Alves abriu as portas do primeiro banco brasileiro a operar integralmente como uma instituição financeira nos Estados Unidos com serviço local, oferecendo conta bancária, cartão de credito, cartão de débito, acesso a 50 mil caixas eletrônicos, ou terminais de autoatendimento, conhecidos aqui como ATMs, e, logo terá financiamento imobiliário, entre outros produtos.

O objetivo principal da instituição é atender as necessidades da grande concentração de brasileiros na Flórida, na faixa de 300 mil, com perfil de renda diversificado, desde o trabalhador que veio “fazer América” ao estudante, o aposentado e o turista, de passagem.

“Você tem toda uma estratégia, o mais abrangente possível”, diz Alves, hoje com 51 anos e o primeiro presidente e CEO do Banco do Brasil Américas.

Leandro Alves no seu escritório do BB Américas em Coral Gables. Foto de Carla Guarilha.

O BB Américas comprou por US$6 milhões o EuroBank, um pequeno banco comunitário, que no início do ano apresentava fragilidades financeiras.  Com isso, o Federal Deposit Insurance Corporation, entidade que supervisiona o sistema bancário americano, limitou a ampliação de ativos e passivos, impedindo a atuação integral do Banco do Brasil aqui.

Desde então, o Banco do Brasil injetou US$49,5 milhões para reforçar o capital, demonstrando a força da instituição.

E assim o Banco do Brasil Américas passou a ser reconhecido pelas autoridades americanas como um banco sólido e saudável e abriu as portas oficialmente para o público ontem.

Leandro Alves no coquetel de lançamento do BB Américas na última sexta-feira. Foto: Fabiano Silva.

“Isso nos permite agora crescer e desenvolver com um grau de liberdade muito maior do que anteriormente”, diz o CEO, que informou às autoridades americanas sua estratégia de crescimento:  de menos de dois mil para 100 mil clientes até 2020 e a abertura de 16 agências nos Estados Unidos nos próximos cinco anos.

Hoje o banco tem três agências: em Coral Gables, Pompano Beach e Boca Raton.  Em janeiro, a agência de Coral Gables, onde fica a sede, estará se mudando para um local mais amplo na região da Brickell, que é o centro financeiro de Miami, e a quarta agência deve ser aberta em Orlando.

“Você vai poder passar numa máquina de autoatendimento do BB Américas e tirar o seu dinheiro para visitar o Pato Donald e o Mickey Mouse”, diz Alves.

Como em qualquer banco americano, o cliente aqui vai ter que apresentar dois documentos que comprovam identidade e um comprovante de endereço para abrir uma conta corrente.  O diferencial será no histórico de crédito, essencial para qualquer empréstimo ou financiamento nos Estados Unidos.

“Ninguém conhece esse brasileiro como nós.  Ninguém vai conseguir fazer uma avaliação da capacidade de pagamento ou da visão de risco desse cliente tão bem quanto nós”, diz Alves.  “Acho que é isso que a comunidade pode esperar dessa nossa chegada aqui na Flórida”.

Independentemente das condições financeiras no Brasil, quando o imigrante chega aqui, ele normalmente leva alguns anos para construir um histórico de crédito, dentro da estrutura financeira do país: sem crédito, não se tem dívidas, e sem dívidas não se consegue crédito para pegar um financiamento para um carro ou um imóvel, por exemplo.

“Temos a possibilidade de ir ao Brasil e recuperar um pouco dessa memória do histórico de investimentos desse brasileiro no seu pais de origem, que é o Brasil”, diz Alves.  “Isso faz com que, diferentemente de outras instituições, nós possamos, de alguma forma, sob jargão bancário, assumir o risco desse indivíduo, desse novo cliente, porque nós já conhecemos o seu histórico em relação ao Brasil”.

Isso vai agilizar a vida e ciclo financeiro do brasileiro aqui, assim como o fluxo de remessas entre os dois países.

“Queremos buscar essa conectividade entre o Brasil e Estados Unidos de forma que o brasileiro que aqui está possa mandar dinheiro para o Brasil de uma maneira barata, simples e direta e que esse dinheiro possa vir do Brasil para os Estados Unidos de uma forma simples”, diz Alves.  “Vamos obviamente ter tarifas adequadas, condizentes, competitivas e pode ter certeza de que o que nós pudermos fazer, inclusive conversar com nossas autoridades com vista a facilitar esse processo, nós faremos. Acho que essa própria entrada do BB aqui pode gerar alguns aprimoramentos dos processos hoje existentes”.

Leandro Martins Alves entrega simbolicamente o primeiro cartão de débito "0000000001" do Banco do Brasil Américas para o Embaixador Hélio Vitor Ramos Filho, Cônsul-geral do Brasil em Miami. Ao lado, Jefferson Hammes, vice presidente do Banco do Brasil Américas. Foto: Fabiano Silva.

Alves diz que espera, em breve, estar atendendo também brasileiros interessados em adquirir um imóvel aqui com a facilidade de financiamento de longo prazo.

“Nesse lançamento, focamos em produtos mais urgentes para nossa comunidade, que é conta corrente, cartão de credito e a poupança.  O financiamento imobiliário vem à frente”, diz ele.  “Temos uma grande preocupação com brasileiros aqui residentes, mas também trabalharemos com os brasileiros que vivem lá no Brasil e tem interesse em comprar imóveis aqui nos Estados Unidos”.

Gaúcho, Alves passou por várias cidades do Brasil antes de chegar em Nova York, em 2006, com a esposa e três filhos, como gerente regional para coordenar a operação do BB na América do Norte.

Seu maior desafio foi a adaptação pessoal num novo país.

Na sua sala. Foto de Carla Guarilha.

“Na chegada é sempre um processo muito mais difícil do que as pessoas imaginam, mesmo numa cidade maravilhosa como Nova York ou uma cidade maravilhosa como Miami.  Você não tem referência”, diz ele.  “A ambientação cultural não é um processo simples. Você não sabe o que comprar no supermercado.  Você tem que aprender algumas coisas, começando pela língua. Por mais que fale inglês, não é a mesma coisa.  Meu filho mais novo não entendia absolutamente nada”.

Hoje, sua filha, com 26 anos, está de volta no Brasil, e os outros dois, 18 e 20, estão na faculdade, um em Maryland e outro na Pensilvânia.

“Acho que minha responsabilidade como pai é de conseguir fazer com que os meus filhos sejam melhores, sob todos os aspectos, do que eu fui”, diz Alves, que mora hoje em Sunny Isles com a esposa e recebe os filhos na época das férias.

Alves diz que o grande segredo do sucesso é “muito trabalho, muita dedicação e muito foco”.

“Para ter sucesso, você tem que ter bastante clareza de onde quer chegar, mas tem que acreditar muito nas pessoas.  Acho que quem faz as empresas são as pessoas”, diz ele  “O sucesso para mim é saber que você está conseguindo agregar valor, conseguindo fazer alguma diferença e que, de alguma forma, isso seja percebido pelas pessoas”.

No vídeo, Leandro Martins Alves revela um pouco mais da sua fórmula de sucesso:

Banco do Brasil abre as portas oficialmente em Miami. Entrevista com Leandro Martins Alves, presidente e CEO. from Chris Delboni on Vimeo.

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terça-feira, 9 de outubro de 2012 Direto de Miami, Educação, Miami | 09:22

Carioca entra na lista dos 100 latinos mais influentes de Miami

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Por Chris Delboni | Coluna Direto de Miami (http://diretodemiami.ig.com.br)
Fotos de Carla Guarilha

A arquiteta Adriana Sabino chegou aos Estados Unidos em 1983.

Destino: Nova York.  Previsão de estada: 6 meses.

Ela veio com Marcelo, seu marido, que faria um curso sobre o sistema bancário americano na New York University, e com suas duas filhas pequenas, uma com 10 meses e a outra com 2 anos e meio.

Logo voltariam ao Brasil.

Mas isso não aconteceu.

“Foi o maior conto do vigário que já passaram em alguém”, brinca Adriana, que havia deixado para trás um escritório de arquitetura com projetos em andamento e uma casa montada em Belo Horizonte, onde a carioca se estabeleceu depois do casamento.

Sabino na sala de sua casa em Key Biscayne. Foto de Carla Guarilha.

O curso em Nova York terminou. Mas a direção do Banco Rural, da família do Marcelo, estava querendo avaliar as opções do mercado bancário em Miami na época, e ninguém melhor do que o casal que já se encontrava no país.

“Eu continuava com minhas duas malinhas e minhas duas crianças – com mais suas duas malinhas”, conta Adriana, que 30 anos atrás iniciava aqui uma vida de desafios – mas também muitas conquistas.

E foram essas conquistas que levaram à grande homenagem que recebeu na semana passada: sua foto agora faz parte da exposição “100 Latinos”, um painel dos latinos mais influentes daqui, que ficará exposto por um ano no Aeroporto Internacional de Miami.

Foto oficial, de Dora Franco. Cortesia "100 Latinos".

O projeto, uma iniciativa da Associação Fusionarte, de Madrid, está na sua segunda edição em Miami, e espera em breve fazer parte de muitos outros aeroportos nos Estados Unidos.

A colombiana Verónica  Durán, fundadora e presidente da Fusionarte, diz que o objetivo do projeto, que resulta em um livro e exposição, é mostrar para o mundo os latinos que são exemplos de sucesso, são imigrantes profissionais que contribuem para o desenvolvimento da cidade onde vivem em vários aspectos: econômicos, sociais e culturais.

“Queremos mostrar o rosto da América Latina”, diz ela.

E Adriana hoje está neste seleto hall.

Cortesia "100 Latinos"

“Tinha achado a iniciativa muito interessante – de valorizar as pessoas que estão fazendo a diferença em Miami”, diz Sabino.  “Agora sou uma delas.  Acho que trago essa integração da minha comunidade com a sociedade multinacional de Miami”.

O outro brasileiro selecionado este ano foi o piloto Hélio Castroneves.

Yolanda Sánchez, diretora para assuntos artísticos e culturais do aeroporto, disse que os 100 latinos escolhidos representam modelos de perseverança e comprometimento.  “Para muitos, não têm sido fácil”, diz ela.  “Tenho muito orgulho de poder mostrar os aspectos positivos da cultura latina”.

Já para Adriana, é especificamente a cultura brasileira que ela pretende disseminar cada vez mais por aqui.

Ela divide seu tempo quase igualmente entre sua empresa de planejamento e decoração de interiores, Adriana Sabino Interiors, e o Centro Cultural Brasil-USA, que acaba de completar 15 anos.

Adriana cofundou o CCBU, uma entidade sem fins lucrativos, que nasceu com o objetivo de difundir e divulgar a cultura brasileira em Miami.

“Foi uma estratégia de sobrevivência de imigrante.   A ideia era mostrar toda a riqueza que o Brasil tem e que não era muito divulgada,” diz ela.  “A gente queria abrir um espaço de prestígio para o brasileiro que estava morando aqui e marcar nossa presença de uma maneira simpática”.

Uma de suas prioridades sempre foi a disseminação da língua portuguesa do Brasil, de forma abrangente, onde o aprendizado iria além do idioma, envolvendo história, geografia e outros aspectos da cultura, representando assim um resgate cultural completo através do idioma.

Existe uma grande diferença entre falar um idioma e suas nuances culturais, diz Adriana, que foi uma das principais vozes para a criação do estudo bilíngue da pioneira escola Ada Merritt em Miami, onde as crianças aprendem as matérias em inglês e português e, recentemente, recebeu das mãos do cônsul-geral do Brasil em Miami, Embaixador Hélio Vitor Ramos Filho, a Ordem do Rio Branco, uma grande homenagem do Itamaraty.

Na varanda de seu apartamento. Foto de Carla Guarilha.

“Ser brasileiro é falar a língua mas também entender o espírito brasileiro, compreender de onde você vem, que é fundamental”, diz Adriana, que enfrentou esse desafio ao chegar nos Estados Unidos: manter sólidas suas referências como brasileira.

“[Como imigrante] você precisa criar sua base”, diz ela. “O segredo da vida é você se colocar desafios que dão trabalho, demandam esforço, mas que estão dentro do seu alcance.  Sou muito boa em criar uma base para mim”.

No vídeo, Adriana reflete sobre sua visão de vida e de sucesso:

Exposição “100 Latinos” volta para o Aeroporto Internacional de Miami, este ano com a brasileira Adriana Sabino. from Chris Delboni on Vimeo.

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terça-feira, 2 de outubro de 2012 Direto de Miami, Entrevistas | 09:34

CSI: Brasileira integra seleto time de artistas forenses nos EUA

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Por Chris Delboni | Coluna Direto de Miami (http://diretodemiami.ig.com.br)
Fotos de Carla Guarilha

Se você gosta de assistir séries na TV, como CSI, está acostumado com cenas fortes em necrotérios, onde profissionais fazem autópsias e reconstituem os rostos das vítimas em busca de pistas.

CSI é uma febre no mundo inteiro, inclusive aí no Brasil, mas o que pouca gente sabe é que há uma brasileira no time de cerca de somente 50 profissionais contratados nos Estados Unidos para trabalhar exclusivamente como artista forense. Ela se chama Catyana Skory e trabalha no departamento de policia do condado de Broward, em Fort Lauderdale.

Catyana Skory no estacionamento do Broward Sheriff's Office. Foto de Carla Guarilha.

Desde maio de 2008, quando chegou na Flórida, Skory já fez a reconstrução facial e crânio-facial de mais de 170 vítimas para identificar cadáveres.

Quando ela não é chamada imediatamente no local do crime ou acidente, a primeira parada de Skory é no necrotério, onde ela observa o cadáver e tira fotos.  Depois, ela leva para seu escritório a cabeça do morto e todos os relatórios policiais para começar a visualizar o rosto.

“Informação de cabelo e roupa é muito importante”, diz a artista forense, que começa o trabalho esculpindo e reconstruindo a cabeça.  Primeiro ela coloca os olhos e depois músculos para dar forma.  “Só olhando o crânio dá para ler o rosto”, diz.

Skory no seu escritório do Broward Sheriff's Office. Foto de Carla Guarilha

Skory nasceu em São Paulo, em 1975.

Mas sua história com o Brasil começou em 1927, quando seus bisavós imigraram do Japão para o município de Registro, hoje conhecido como o marco da colonização japonesa no estado.  Junto no navio vinha a filha do casal, com 7 anos, a avó de Catyana, Teruko Matsuzawa, a pessoa mais importante de sua vida.

“Ela era divertida e estava sempre sorrido”, diz a neta que mantém a foto da avó no escritório, a única foto de família pendurada na parede, ao lado dos seus computadores, como se fosse uma luz inspiradora.

“Sempre busque a felicidade onde estiver” foi a maior lição que aprendeu da avó, com quem conviveu intimamente.  “Ela morou conosco depois do divórcio dos meus pais e comigo depois da minha separação”, diz Skory.

Foto de Carla Guarilha.

Sua mãe saiu de casa cedo para estudar letras em São Paulo, onde conheceu o pai de Catyana, um dos primeiros jovens americanos a aderir ao programa de Peace Corps, criado pelo governo Kennedy, em 1961, como uma espécie de intercâmbio com o intuito de aproximar os países, facilitando a paz mundial e compreensão entre os povos.  Logo se casaram e quando o prazo do trabalho voluntário do pai no Brasil terminou, o casal se mudou para Nova York, com a filha pequena.

Catyana tinha pouco mais de um ano.

Ela cresceu nos Estados Unidos, mas sua avó, apesar de ter nascido no Japão, continuou sempre sendo seu maior eixo com suas raízes no Brasil.  Era a única pessoa com quem falava português na família e com quem passava as férias escolares em Registro – até ela falecer, há dois anos.

Catyana diz que como ela, sua avó também nunca teve medo da morte.

“Ela queria conhecer o necrotério e eu levei”, conta Catyana.  Ao saírem, bem humorada, a avó ligou para alguns amigos para contar: “Eu vi uma pessoa morta hoje”.

“O mundo é maior do que conseguimos ver”, diz Catyana.  “Não dá para saber o que está embaixo de tudo ou atrás”.

Dizem que todo mundo sempre tem "esqueletos no armário". Skory traz os seus para o escritório. Foto de Carla Guarilha.

Catyana se vê mais como uma artista plástica do que uma cientista.  Ela adora pintar.

Seus estudos universitários começaram no curso de artes na Universidade de Colorado.  Mas uma aula de antropologia mudou seu rumo.  Ela se encantou com a disciplina.

“Eu queria entender as raízes da humanidade, dentro de conceitos de moral, ética e cultura”, diz a artista forense, que tem dupla nacionalidade – brasileira por nascimento e americana pelo pai.  “Era muito confuso.  No Brasil, eu não era brasileira.  Nos Estados Unidos, eu não era americana.  Não sou branca nem asiática”.

Antropologia ajudou no seu autoconhecimento e na formação de uma identidade individual que hoje compreende melhor aos 37 anos,  mas foi também a disciplina que lhe abriu as portas para uma nova descoberta: ciência forense.

Foi lendo um livro de antropologia numa visita ao Brasil, em 1997, que descobriu o trabalho de reconstrução facial.

Se formou em antropologia e história na Universidade do Estado de Nova York em 1996 e, em 2000, completou mestrado em ciência forense na Universidade George Washington, na capital americana.

Entre 2000 e 2008, trabalhou no instituto médico legal em Fairfax, Virginia, depois em Dallas no Texas e foi investigadora de CSI – Crime Scene Investigator – em Manassas, também em Virginia, até ser contratada há quatro anos em Broward, exclusivamente como artista forense.

Catyana Skory usa Photoshop no processo de reconstrução facial. Foto de Carla Guarilha.

“Os mortos têm paz mas não têm voz”, diz ela.   Com seu trabalho, Catyana diz que consegue dar “voz” através de uma imagem para que os mortos sejam identificados por seus familiares, trazendo assim um pouco de paz para eles.

Como existem muito poucos profissionais no país, o último caso que resolveu foi um pedido especial do instituto médico legal de Ohio, que enviou o crânio da vitima e todo o material disponível.  “Fiz a reconstrução facial, mandei a fotografia e colocaram na televisão”, diz a artista forense.  “Em um dia a sobrinha dele telefonou e disse: ‘acho que esse é meu tio’”.

Para saber mais sobre o trabalho de Catyana Skory, visite sua página na rede social LinkedIn, onde ela também criou um grupo de discussão para artistas forenses no mundo — Linkedin Discussion Group for Forensic Artists.

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terça-feira, 25 de setembro de 2012 Direto de Miami, Entrevistas, Política | 09:58

Brasileiro pode ser eleito deputado federal nos EUA em novembro

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Por Chris Delboni | Coluna Direto de Miami (http://diretodemiami.ig.com.br)
Fotos de Carla Guarilha

Quando José Felix Peixoto tinha 22 anos, ele trabalhava em Ipatinga na Usiminas, que apoiava, na época, a candidatura de Eliseu Resende, do PDS, para governador de Minas.  Mas Peixoto fazia campanha para Tancredo Neves, do PMDB.  Era 1982.

Foi a primeira vez que Peixoto se viu numa posição de liderança política contrária a seus superiores.

Vindo de uma família humilde, de Ipanema, Minas Gerais, ele precisava do emprego.  Mas preferiu contrariar a direção da empresa a seus princípios.

Ele pediu demissão e se mudou para Brasília para trabalhar no Banco do Brasil, onde havia sido menor aprendiz até os 18 anos.

Hoje, fazendo 52 anos nesta sexta-feira, Peixoto é candidato para a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos da América.

Ele concorre para deputado federal pelo Distrito 26 da Flórida — sem filiação partidária e uma pequena verba de US$15 mil.

Foto oficial da candidatura. Cortesia.

“Precisamos sair do armário e mostrar para este país que produzimos, que temos uma cultura e que não somos só carnaval e futebol”, diz ele.  “Somos pessoas inteligentes, podemos acrescentar a este país, mas precisamos ter gente lá, no congresso”.

Peixoto mora em Key Largo, no condado de Monroe, há uma hora e meia de carro de Miami.  A população é de pouco mais de 10 mil habitantes, de acordo com o Censo de 2010.  Mas como é uma cidade de veraneio, muita gente que tem propriedade e cédula eleitoral de lá, não reside o ano todo.

Peixoto calcula que mais de metade dos votos seja por correspondência, e esse é um de seus desafios: arrecadar fundos para uma mala direta e convencer os eleitores que ele é o melhor candidato para representar a região.

O segundo desafio é atingir todo seu eleitorado.

O Distrito 26, que foi acrescentado ao mapa eleitoral da Flórida este ano e vai de Key West, ao sul, à Cutler Bay, no condado de Miami-Dade, tem cerca de 600 mil eleitores com capacidade de voto, diz Peixoto, que está fazendo uma campanha simples, à moda antiga, de porta a porta mas tem grande chance de ganhar se seus adversários forem impugnados.

José Peixoto em visita a Miami. Foto de Carla Guarilha.

O republicano David Rivera é acusado de fraude e diz que tem informação que pode derrubar o democrata Joe Garcia.

Por sorte ou destino, essa tem sido a história da vida desse mineiro.

Seu pai, aposentado, trabalhava em laticínio, e sua mãe, dona de casa, cuidava dos seis filhos.  Aos 18 anos, José, que só completou o segundo grau no Brasil, saiu de casa para trabalhar na Usiminas.  Quando pediu demissão, imediatamente conseguiu trabalho no Banco do Brasil, em Brasília. Lá ficou um ano, até que surgiu uma oportunidade e resolveu tentar a vida nos Estados Unidos.

Chegou em Orlando, exatamente 27 anos atrás, no dia de seu aniversário, 28 de setembro, com US$500.  Na chegada, já no aeroporto, conheceu um brasileiro de Teresópolis, e seguiu de trem com ele para Nova York.  Novamente, sem a menor dificuldade, no dia seguinte foi indicado para outro brasileiro, dono de lojas de engraxate, e conseguiu seu primeiro trabalho no país, engraxando sapatos nas ruas de N.Y.

“Só falava, ‘thank you, I am sorry’”, diz Peixoto, hoje fluente em inglês. “No primeiro dia, já ganhei US$56”.

Continuou trabalhando em Nova York até que um passeio a Niágara Falls do lado do Canadá deu problema com a imigração americana.   Peixoto entrou nos Estados Unidos com visto de turista, pediu uma extensão de mais seis meses, mas não estava com seu passaporte nesta pequena viagem.  Apressado para pegar o carro, que havia deixado do lado americano, resolveu não esperar o ônibus da excursão, que parou num “duty free” na estrada.  Foi andando até a fronteira, poucos passos do onibus, mas aí foi detido pela imigração americana.  Logo foi solto com uma advertência.  Os oficiais disseram que ele estaria recebendo uma carta em breve.

Assustou-se, mas os tempos eram outros, diz Peixoto. “Não existia a caça ao imigrante”.

Mas por garantia, ele chegou em casa, avisou os amigos com quem morava e pegou a estrada em direção a Flórida.  Chegando em Miami, por sorte ou destino, seu caminho foi abrindo: logo conseguiu trabalho com fibra de vidro numa fábrica de barcos, casou-se com uma brasileira naturalizada americana, pegou seus documentos de imigração, se divorciou tempos depois, e numa ida ao Brasil, conheceu sua atual esposa, Bianca.

Quando retornaram, começaram a trabalhar como caseiros de um médico americano, numa mansão em Coral Gables.  Mas Bianca engravidou e a família americana, por receio de uma queda e algum problema durante a gravidez, preferiu demiti-los, mas o médico tinha uma casa em Key Largo que precisava de pintura.  O casal poderia morar lá enquanto pintava.

Isso foi 23 anos atrás.

Peixoto com seu cachorro, Simba, de 5 anos, em sua casa em Key Largo. Foto: Álbum de família.

Hoje, Peixoto e Bianca tem três filhos, seu próprio barco e moram numa casa a beira d’água num bairro onde o imóvel mais barato é US$500 mil.

O trabalho de pintura na casa do médico americano foi o inicio de sua carreira de sucesso.

Ele trabalha até hoje com manutenção e reforma. “Sou um prestador de serviços em construção civil”, diz ele.  “Um homem de 1000 ferramentas”.

E com suas ferramentas e simpatia foi conquistando os residentes de Key Largo, onde hoje ele é o único maçom latino da região.

Peixoto diz que o segredo de seu sucesso é “gostar da vida e do ser humano.  Acho que na vida você tem que estar sempre rodeado de pessoas”, diz.   “Você leva da sua vida a vida que você leva”.

E sua vida agora depende das eleições, em 6 de novembro.

Peixoto diz que mesmo se não ganhar desta vez, não vai desistir da vida política.

“Está no sangue”, diz José Felix, que descobriu há pouco tempo um diário do avô materno, do mesmo nome, onde ele escreveu durante os anos ’30 sobre os discursos que preparava para os políticos da época e os comícios que participava.  Ele morreu quando a mãe de Peixoto tinha 1 ano.

“A maior lição do diário é ter perseverança”, diz o neto de José Félix.  “A gente tem sempre que correr atrás do que tem vontade de ser”.

Uma página do diário do avô materno, José Félix. Foi encontrado recentemente pela família em Minas Gerais.

E Peixoto hoje quer ser a voz do brasileiro em Washington.

“Vou levar para o congresso dos Estados Unidos a bandeira do Brasil”, diz ele. “Temos que ter o prazer de falar: sou brasileiro-americano”.

Peixoto em comício este último fim de semana. Foto: coretsia da campanha.

Para maiores informações do político, visite seu website ou Facebook.

No vídeo, José Félix Peixoto fala sobre o diário do avô, também chamado José Félix, que conta um pouco de suas aventuras e atividades políticas na década de ’30.  Peixoto nunca conheceu seu avô materno.

Brasileiro na Flórida pode chegar este ano em Washington como deputado federal from Chris Delboni on Vimeo.

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terça-feira, 18 de setembro de 2012 Direto de Miami, Entrevistas, Meio ambiente, Miami | 09:43

Projetos ecológicos de ambientalista brasileiro chamam a atenção de Obama

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Por Chris Delboni | Coluna Direto de Miami (http://diretodemiami.ig.com.br)
Fotos de Carla Guarilha

Quando o presidente americano Barack Obama esteve em Miami Beach há alguns meses, seu governo reconheceu e elogiou o planejamento ambiental e ecológico que a cidade vem propondo e implementando.   Ele apelidou Miami Beach de “paraíso sustentável” — um elogio aos programas de conservação de energia e água, reciclagem, conscientização e restauração de recifes de corais em South Beach desenvolvidos por um brasileiro, de Niterói, Luiz Rodrigues, hoje diretor-executivo da ECOMB – Environmental Coalition of Miami & the Beaches ou, em português, Coalizão Ambiental de Miami e das Praias.

Rodrigues ao lado de um aparelho de reciclagem na sala da ECOMB. Foto de Carla Guarilha.

A ONG foi fundada em 1994 e sua principal atividade era limpeza de praias.

Em 2000, Luiz, que vinha para cá da Califórnia, com vasta experiência em biologia marinha e educação ambiental, passou a ser um assíduo voluntário da organização.

Sempre com novas ideias para melhorar as condições do meio ambiente na região, no ano seguinte, ele foi convidado para assumir a direção da ECOMB.

Depois de muita ponderação, aceitou.

Ele trabalhava no Discovery Channel – América Latina das 7h às 15h30, e na ECOMB, na sala de sua casa, até as 2 da manhã.

“Me chamavam de Luiz Ecomb”, conta rindo e orgulhoso do sobrenome do qual foi apelidado.

Rodrigues durante Dia Internacional de Limpeza Costeira, no último sábado, coordenando o trabalho com uma voluntária da ECOMB. Foto: Cortesia ECOMB.

Ele trabalhava praticamente sozinho, sem verba e dependendo de voluntários.

Mas com sua simpatia, dedicação e seriedade foi, aos poucos, criando uma enorme credibilidade com os governantes e moradores da cidade, que passaram a acreditar e apoiar suas iniciativas ambientais, entre elas a liderança e participação em grandes eventos de impacto mundial. Um dos principais é o Dia Internacional de Limpeza Costeira, que  aconteceu sábado passado e contou com mais de 1000 voluntários em Miami Beach.

Dia Internacional de Limpeza Costeira. Foto: Cortesia ECOMB.

“Acho que tenho um objetivo principal, que é de ser um agente de mudança na comunidade”, diz ele.  “Não temos condições de mudar o mundo sozinho, mas temos condições de mudar o mundo em nossa volta”.

E assim, a ECOMB foi crescendo, cada vez mais presente em Miami Beach.

Em 2007, sob sua orientação, a cidade criou um comitê de sustentabilidade, que usa como base, um guia que foi desenvolvido pelo brasileiro.

Determinado como um bom capricorniano, por sete anos, Luiz foi levando a jornada dupla entre o Discovery e a ONG, até que em 2008, conseguiu uma verba do condado de Miami-Dade, de US$42 mil, para estruturar melhor a ECOMB, já considerada praticamente uma instituição local.

“Eu sempre retiro barreiras”, diz, com humildade mas enorme orgulho de suas conquistas. “Todo trabalho é em beneficio da cidade de Miami Beach, dos turistas e moradores”.

A vida mudou: Luiz deixou o Discovery, passou a trabalhar integralmente nos projetos ambientais e transferiu o escritório de sua casa para uma sala em South Beach.

Na sua mesa no escritório da ECOMB. Foto de Carla Guarilha.

Mas seus planos não pararam por aí.

Ele diz que fez vários estudos e provou matematicamente para os governantes de Miami Beach que só de projeto de limpeza das praias seus esforços economizavam para a cidade mais de US$150 mil por ano.  “Fiz todos os cálculos, apresentei para os vereadores e pedi um prédio para a cidade”.

E mais uma vez, atingiu seu objetivo.

Em 2009, recebeu um telefonema comunicando que a ONG poderia usar o espaço de uma estação policial que estava se mudando.

“Foram uns seis meses até que finalmente a proposta foi aprovada”, diz.

Poster mostra o projeto de expansão do prédio da ECOMB onde, em breve, vai incorporar o Centro Ambiental de Miami Beach.

Hoje, ele aluga por US$1,25 (um dólar e 25 centavos) por ano um prédio pequeno mas que em breve se tornará um grande ícone: “Miami Beach Center for the Enviroment”, ou Centro Ambiental de Miami Beach, que vai incorporar todos os conceitos de sustentabilidade e se tornar um espaço de educação e conscientização ambiental e ecológica.  Terá aulas e treinamento, programa de reciclagem, biblioteca, uma horta orgânica e uma tela de cinema ao ar livre para passar filmes de meio ambiente, que também faz parte de um novo ramo que Luiz começou a desenvolver no ano passado.

Está programado para o mês que vem, o  Festival de Cinema Ambiental – Miami & The Beaches Environmental Film Festival.

Desde pequeno, Luiz, hoje com 53 anos, diz que é apaixonado pela natureza.  Filho único, sempre viajava muito com os pais para apreciar a vida natural.  Mas foi na escola, numa aula de zoologia, que descobriu sua vocação.  Os alunos tiveram que dissecar uma rã e foi aí que tudo começou.

“Comecei a ter um conhecimento mais aprofundado sobre a essência da vida, a formação, a criação da vida”, conta.  “Quanto mais estudava, mais fascinado ficava”.

Cursou biologia marinha na Universidade Santa Úrsula, mas com 19 anos, surgiu uma oportunidade para estudar nos Estados Unidos e transferiu os estudos para a Universidade da Califórnia, em Santa Cruz.  Se formou com notas altas e em seguida conseguiu uma bolsa para  fazer um mestrado, também na Califórnia, onde foi ficando cada vez mais apaixonado por mergulho e recifes de corais, hoje um dos seus projetos favoritos, ainda não realizados em Miami.

Há mais de 10 anos, estava mergulhando em South Beach, logo no início da praia, quando foi surpreendido: encontrou uma mina de corais no mar.

“Tinha corais até perder de vista, tinha peixe borboleta, tinha tudo,” diz Luiz. “Era lindo, como um Jardim do Éden no quintal da sua casa”.

Rodrigues mostra orgulhoso o projeto de reconstrucão do recife de corais em South Beach. Foto de Carla Guarilha.

Mas não durou muito.

“Quando fui de novo mergulhar um dia em 2002, não achei nada, tudo desapareceu”.

Luiz descobriu que um projeto do condado para a restauração das praias naquela área não levou em consideração os corais.  Trouxeram tanta areia que aterraram e mataram os corais.  Agora, o projeto da ECOMB, que espera realizar em breve, vai reconstruir um pequeno grupo de recifes de corais.

Mas projetos novos como esse e a construção dos anexos do prédio da ECOMB não podem demorar muito.

Luiz está sentindo que seu ciclo nos Estados Unidos está terminando.  Quer ficar perto dos pais, já com 80 anos, e quando foi ao Brasil para a conferencia das Nações Unidas, Rio+20, percebeu que ainda pode fazer muita coisa por seu país.

“Conheci muita gente interessante”, diz.  “Comecei a ter uma ideia diferente que tinha vontade de fazer no Brasil para criar uma parceria – um grupo de ação – entre ONGs, o governo e a industria”.

Mas antes, ele quer finalizar seus projetos aqui, e espera conseguir cada vez mais apoio de empresas, inclusive as brasileiras como vem tido da Vita Coco, VeeV e Leblon Caipirinha.

“A gente nunca vai saber o que está do outro lado da montanha se você não escalar a montanha, então procuro sempre escalar, com persistência, insistência, e com carinho, com cuidado e respeito”, diz o ambientalista brasileiro, hoje o maior defensor do sistema ecológico de Miami Beach.

No vídeo, Luiz Rodrigues revela em  60 segundos o segredo de seu sucesso:

Luiz Rodrigues, diretor executivo da ECOMB, maior centro ambientalista de Miami Beach: segredo do sucesso from Chris Delboni on Vimeo.

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terça-feira, 11 de setembro de 2012 Beleza, Direto de Miami, Miami | 10:01

Filha de brasileira pode ser escolhida jovem mais bonita da Flórida

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Por Chris Delboni | Coluna Direto de Miami (http://diretodemiami.ig.com.br)
Fotos de Carla Guarilha

Com três anos. Cortesia: álbum de família.

Sofia Milanesi começou a carreira de modelo com pouco mais de 2 anos.   Filha de pai italiano e mãe brasileira, tinha se mudado para Miami, onde surgiu a oportunidade e logo começou a trabalhar com uma das maiores agências de modelo infantil, a World of Kids, em South Beach.

“Trabalhava umas quatro vezes por semana”, conta Sofia, hoje com 15 anos.  “Eu gostava muito”.

Seu trabalho mais importante foi uma foto da marca italiana Lorena’O, que fez para a Vogue Bambini, quando tinha 8 anos.  Foi a primeira vez que saiu numa revista de moda.  Até então fazia fotos para catálogos de lojas de departamentos, como a Sears.

Vários trabalhos. Cortesia.

“Estava um pouco nervosa porque era o maior trabalho que iria fazer”, diz ela.  “Mas vi que o fotógrafo era italiano e comecei a falar italiano com ele.  Acho que deixei uma impressão muito boa”. O teste foi um sucesso e Sofia conseguiu o trabalho.

Mas com 11 anos, a família se mudou para Nova York, e lá, Sofia não teve a mesma sorte. Com a chegada da adolescência, o mercado exigia pelo menos 1,72 m, que ela não tem.

“Fiquei muito triste e não desisti por completo de ser modelo”, diz.  “Mas regras são regras”.

Assim Sofia começou a fazer cursos de interpretação.   Fez aula no HBO Studios, participou de um filme curta metragem e de um comercial da Burlington Coat Factory, uma grande loja nos Estados Unidos.

“Se for muito famosa como atriz, vão me chamar para fazer alguns trabalhos de modelo, mesmo se não tiver altura”, diz a adolescente, que voltou para Miami no ano passado.

Ela mora com a mãe, Michele Bolgen, separada do pai de Sofia, e seus três meio-irmãos, de 7, 6 e 2 anos, filhos do atual casamento da mãe.

Aqui, ela começou a se interessar por concursos de beleza.

Orgulhosa da faixa de Miss Bal Harbour. Foto de Carla Guarilha.

“Comecei a ver concursos de beleza na internet, estudei e pensei: acho que consigo fazer isso”, conta, entusiasmada, a Miss Bal Harbour Teen USA, um título que conquistou no início do ano.  “Estava me sentindo bem, com muita confiança no dia”.

Sofia agora concorre, dias 19 a 21 de outubro, ao título estadual, de Miss Florida Teen USA para 2013.

Ela está sendo preparada por especialistas no concurso de Miss Teen. O treinamento vai desde o vestido e postura até a importante entrevista de três minutos com o júri.

“Meu maior desafio é deixar a melhor impressão”, diz ela.   “Quero mostrar minha personalidade.  Eu tenho um coração bem grande – espero que eles consigam ver isso”.

Sofia com sua gata, Catniss, de 8 meses. Foto de Carla Guarilha.

Sofia diz que o que mais teme são os temas políticos, mas está se preparando também.  “Estou lendo o jornal todo dia”.

Desde pequena, Sofia gosta de ler e estudar, e hoje fala fluentemente quatro idiomas: português, inglês, espanhol e italiano.

“Eu sempre coloco os estudos na frente”, diz a jovem, que só tira notas altas.

“No concurso de beleza não buscam só beleza”, diz ela.  “A entrevista é a coisa mais importante.  Você tem que ser inteligente.  Tem uma menina que está concorrendo – tem 16 anos e está na universidade – tem que ser inteligente, não só bonita”.

Com sua mãe, Michele Bolgen. "Uma coisa que minha mãe sempre me falou e nunca escutei é escolher bem meus amigos", diz Sofia. "Nem sempre fiz amizades boas – e agora que me mudei para cá vejo que meus amigos em Nova York se meteram em coisas horríveis. Penso, nossa, poderia ser eu". Foto de Carla Guarilha.

Sofia espera conseguir cursar grandes universidades, como Harvard ou Yale, quando se formar no colegial, em 2015.  Ainda não sabe se quer fazer engenharia ou marketing.

Ela afirma que como sua família tem condições de pagar sua universidade, se ela ganhar o concurso, quer doar um dos prêmios – US$40 mil em bolsa de estudos na Nova University, uma faculdade na Flórida – para uma menina que não tenha condições financeiras de arcar com os estudos.

“Vou ver se consigo doar para uma pessoa que realmente quer estudar mas não tem dinheiro”, diz Sofia.

Mas enquanto isso, ela está estudando numa escola especial, Miami Arts Charter School, onde tem duas horas diárias de aula de interpretação.

E assim, Sofia segue em frente, em busca do sucesso e da felicidade, que para ela é a mesma coisa.  “Sucesso é ser feliz”, diz.  “O segredo é ser persistente em tudo que você faz.  Não pode deixar passar as oportunidades. Tem que ir atrás”.

Sofia fez questão de posar na frente do quadro dos irmãos, na sala de sua casa. "Felicidade também é estar bem com a família", diz a jovem Miss Bal Harbour Teen. Foto de Carla Guarilha.

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terça-feira, 4 de setembro de 2012 Direto de Miami, Diversão, Esporte, Miami | 09:33

Rei do café surfa nos negócios e na vida

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Por Chris Delboni | Coluna Direto de Miami (http://diretodemiami.ig.com.br)
Fotos de Carla Guarilha

Christian Wolthers, apesar do nome, é brasileiro. Mais precisamente de Santos, no litoral de São Paulo. E, como muitos que moram perto de praia, começou a surfar ainda garoto, com apenas 9 anos.

Hoje, com 53, Christian mora no sul da Flórida, onde abriu recentemente sua primeira loja de pranchas de surfe e Stand Up Paddles, o surfe a remo, uma modalidade do esporte aquático que vem crescendo rapidamente aqui, no Brasil e no mundo.

Christian Wolthers na sua loja em Fort Lauderdale. Fotos de Carla Guarilha.

O que atualmente é um negócio sério e consolidado, começou como uma brincadeira.

Apaixonados pelas ondas,  Christian e o irmão mais velho John começaram a fazer e vender pranchas para sustentar o hobby. E foi assim, ainda adolescentes e com incentivo do pai, que a dupla abriu uma pequena fábrica de pranchas de surfe, a “Viking”, apelido que ganharam nas praias  por conta do tipo físico e do seriado que passava na TV na época.

John, esq., e Christian, dir, com 12 anos. Cortesia.

Mas, a morte do pai em 1978, fez com que  Christian, aos 18 anos, assumisse outro negócio da família: o comércio de café. “Meu pai deixou uma herança, um nome muito forte no café”, diz.

E assim, o empresário das pranchas surfou muito bem no outro ramo também. Ele conhecia o potencial do café brasileiro, mas sabia que o Brasil tinha fama de exportar para os Estados Unidos produto de média qualidade. Estava disposto a enfrentar o desafio e mudar a imagem do café brasileiro no mundo inteiro.

“Foi nadando contra esse estigma que resolvi abrir um escritório nos Estados Unidos”, conta, orgulhoso, que poucos anos depois, o Starbucks estava vendendo em todas suas lojas a linha ‘Brazil Ipanema Bourbon’, da fazenda Ipanema, representada pelos Wolthers.

“Sem dúvida fui o primeiro a trazer cafés especiais para os Estados Unidos”, confirma.

E foi assim que Christian se mudou com a esposa e os filhos para Fort Lauderdale, perto de Miami, nos anos 90. “A Flórida sempre esteve com a gente”, brinca Christian, fazendo referência a praia da Flórida, em Praia Grande, onde surfava na sua infância e juventude.

Já instalado aqui, abriu a Wolthers America, uma importadora de café que trabalha diretamente com a Wolthers & Associates, que opera como corretora do produto no Brasil.

As duas empresas vendem hoje em média quatro milhões de sacas de café por ano e continuam expandindo os negócios com escritórios em outras partes no mundo — sempre tomando decisões, dentro do possível, com olho nos melhores pontos para o surfe.

“Montei escritório de café na Guatemala e abri uma distribuição de pranchas Viking lá. Guatemala talvez seja a onda mais perfeita e desabitada”,  conta, sorridente o surfista.

Ele lembra que até em locais não muito propícios ao surfe, ele sempre deu um jeito de aliar os bons negócios à onda perfeita, ou o mais perto possível disto.

Christian surfando no ano passado na Nicaragua, outro de seus pontos favoritos para surfar. Cortesia.

Christian conta orgulhoso que aos 21 anos foi a primeira pessoa a surfar na Dinamarca, isto com uma prancha feita com um ralador de queijo em cima de um arbusto.  Ele diz que não resistiu a visão de enormes ondas geradas por uma tempestade que tinha atingido a cidade de praia onde ele e a mulher estavam para ter o primeiro filho do casal, Rasmus.

Hoje, a Viking Surfboards produz em séries de até 50 pranchas, tem mais de 150 modelos seus exclusivos e vende anualmente cerca de 2.500 pranchas de vários tipos e tamanhos, entre elas a SUP – Stand Up Paddles, que está entre as mais procuradas e dá o nome a sua nova loja: Vikings Surf’s SUP, um trocadilho com a gíria em inglês, “surf’s up”, algo como, “E ai, surfando bem?”.

A SUP, na parede, é uma das modalidades que mais cresce nos Estados Unidos.

Christian diz que sua identidade como surfista aos poucos está desaparecendo, mas ele tenta não perder nenhuma oportunidade.  No último furacão, Isaac, aproveitou as ondas fortes na praia de Haulover, perto de Miami e esta semana segue de prancha para Orlando para a Surf Expo – uma grande feira de esportes aquáticos, com participação de 12 mil participantes.

“Vamos subir surfando e voltar surfando, se tiver onda”, diz o empresário de café, que aprendeu com os 18 anos de vida que conviveu com seu pai a valorizar sempre o nome da família e nunca trabalhar apenas pelo dinheiro, valores compartilhados pela esposa de 33 anos, companheira do surfe e da vida.

Christian e a esposa Viviane, sua companheira no surfe e na vida.

“Quando você tem paixão pelo que faz, você sempre tem motivação para criar coisas novas”, diz Viviane, enfermeira e acupunturista especializada em medicina oriental.  “Tem que ter sempre um estímulo para uma coisa nova e muita perseverança”.

E assim a família de surfistas cresce com netos e novos negócios.

E eles têm fôlego para muito mais.  Abriram há três anos o Bikkini Barista, um multiplex de três andares em Santos, com café, restaurante, nightclub e casa de shows.

Foi uma ideia de Rasmus para diversificar os negócios da família, que tem como sócio o primo, barista e músico, conhecido nas rodas do entretenimento como Crica.

“O nome é uma fusão das nossas duas raízes: o barista é o café e o biquíni é a brisa do mar e surfe”, diz Christian.

Wolthers mostra, orgulhoso, sua assinatura numa de suas pranchas favoritas.

*No vídeo, Christian fala um pouco sobre sua visão de sucesso, que conquistou graças a sua esposa, conforme se identifica com o relato de Michelle Obama, primeira-dama dos Estados Unidos.

Christian Wolthers, rei do café e do surf brasileiro, revela o segredo do seu sucesso: visão de futuro e amor da família. from Chris Delboni on Vimeo.

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terça-feira, 28 de agosto de 2012 Direitos Humanos, Direto de Miami, Educação, Imigração, Miami | 09:53

Carioca vive sonho americano e vira herói de jovens imigrantes indocumentados que querem completar os estudos nos Estados Unidos.

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Por Chris Delboni | Coluna Direto de Miami (http://diretodemiami.ig.com.br)

O carioca Felipe Sousa Matos ficou muito conhecido aqui nos Estados Unidos pela caminhada de mais de dois mil quilômetros que fez de Miami a Washington para reivindicar o direito de jovens imigrantes indocumentados, como ele, acesso às universidades americanas. Mas este foi, para o brasileiro, apenas um trecho de um caminho muito longo que vem percorrendo desde pequeno.

Tinha 6 anos quando recebeu a primeira grande lição de vida. Sua mãe, faxineira no Rio de Janeiro, o fez entregar para uma outra criança que passava fome na rua o único pão que eles tinham. “Não tínhamos dinheiro para comprar outro pão”, diz Felipe. “A gente tinha muito pouco.  Quase nada”.

Na época, ele não entendeu o gesto da mãe, mas se lembra com clareza das sabias palavras de dona Francisca: “Você tem que ajudar o próximo.  Se você quer mudar o mundo, todo dia você tem que dar o máximo que pode, sem olhar para trás”.

Felipe, em Oakland, no ano passado. Fotos: Cortesia/album de família.

Hoje, aos 26 anos, Felipe reconhece que aquela atitude moldou o seu caráter e o tornou quem ele é.  “Cresci com minha mãe dizendo que eu tinha que compartilhar tudo que conquistava com todos ao meu redor, e que tinha que estudar”, conta.  “Eu lembro que ela sempre me dizia que a única forma de sair da pobreza era através da educação”.

E assim foi.

Felipe hoje é um líder estudantil, um defensor das causas homossexuais e um herói na luta pelo direito de milhares de jovens imigrantes que querem continuar os estudos universitários nos Estados Unidos, muitas vezes o único país que eles conhecem.

Sua caminhada ao lado de três amigos em janeiro de 2010 para reivindicar a aprovação do “DREAM Act” – projeto de lei que daria direito à educação superior para jovens imigrantes – resultou no primeiro passo para essa conquista: a “Ação Diferida”, uma Ordem Executiva da Casa Branca, que entrou em vigor este mês e pode permitir que mais de um milhão de jovens sem documentação nos Estados Unidos, ou seja, considerados ilegais pelas autoridades americanas, consigam permissão temporária de trabalho por dois anos.  [Veja abaixo link do Consulado do Brasil em Miami com mais informações em português e todos os requisitos para obter a documentação].

“Não é uma solução definitiva”, diz Felipe.  “Só o Congresso pode implementar uma solução definitiva, mas já é alguma coisa”.

E para Felipe, muita coisa.  É sua chance de realizar seu grande sonho de seguir adiante com os estudos para se tornar um professor universitário.

Ele mandou seus documentos para o Departamento de Segurança Interna semana passada.  “Acho que vou conseguir”, diz, sorridente e confiante, características que sempre marcaram e guiaram desde menino sua vida, que nunca foi fácil.

Durante o discurso no Miami Dade College, 15 de agosto, dia em que a "Ação Diferida" entrou em vigor. "O papel azul é minha documentação", diz orgulhoso.

Felipe nasceu no Rio de Janeiro.  Os pais se separaram quando tinha apenas 2 anos e ele foi morar em um quitinete com a mãe e as irmãs mais velhas.  Anos depois, quando as irmãs já tinham saído de casa, ele se mudou com a mãe para uma casa em Duque de Caxias.  “Não estava construída por completo. Não tinha muro nem janela direito”, diz ele.  “A gente colocava plástico na janela para que quando chovesse não entrasse água”.

Quando Felipe tinha 12 anos, sua mãe passou a ter uma dor crônica nas costas e não podia mais trabalhar como antes, então, ele começou a fazer o que podia para colocar dinheiro em casa: distribuía panfleto político, limpava casa, cortava grama.  “Trabalhava no que dava”, diz Felipe.

Mas, sua mãe estava muito preocupada com os estudos do filho: “Minha mãe sempre foi muito rigorosa”, diz ele.  “Se eu chegasse em casa com qualquer coisa menos do que uma nota 10, ela brigava comigo”.

Assim, aos 14 anos, Felipe foi morar em Miami com uma das irmãs, que já estava há alguns anos na cidade.  Conseguiu visto de turista, e pegou o vôo para os Estados Unidos, amedrontado e com um grande aperto no coração.  “Tinha medo de nunca mais voltar”, diz.  “Lembro que entrei naquele avião e chorei por oito horas”.

Ao desembarcar, recebeu um conselho de Claudia, sua irmã, hoje com 36 anos: “esse é um país que todos seus sonhos podem se realizar.  A única coisa que você tem que fazer é se manter focado e estudar”.

Felipe entendeu que o sucesso estaria em suas mãos e levou essas palavras muito a sério.

Ele só tirava nota máxima nas matérias, ganhava prêmios na escola e estava pronto para entrar na faculdade quando se deu conta que, como imigrante indocumentado, ele não tinha acesso ao ensino superior. Mas não desistiu.

Felipe passou mais de um ano trabalhando em restaurantes como garçom,  lavador de pratos e limpando casas nos fins de semana para juntar dinheiro.  Até que um amigo comentou sobre um programa especial no Miami Dade College.  Conseguiu vaga e bolsa de estudos e começou a cursar relações internacionais.  Mais uma vez, se superou: abriu uma associação na faculdade para ajudar crianças necessitadas e arrecadou fundos para construção de uma escola na África, continuou ganhando prêmios de melhor aluno e chegou a presidente do Grêmio Estudantil.

Saiu com diploma de dois anos, que é o máximo do curso oferecido no Miami Dade College, e esperava seguir para uma universidade de quatro anos.  Só que de novo, outra decepção.  Tinha as notas para ser aceito nas grandes faculdades americanas mas não tinha dinheiro.  Como imigrante sem documentos, o custo seria três vezes maior.

Perdeu mais um ano até que a amiga de uma amiga comentou sobre um programa especial da Universidade St. Thomas, em Miami.  Foi aceito imediatamente com bolsa parcial.  Dos US$25 mil por ano, a faculdade daria US$15 mil.  Mas ele não desistiu e conseguiu uma segunda bolsa de mais US$7 mil por ano e completou o pagamento com seu trabalho.

Felipe se formou em economia e administração em maio, quando realizou um outro sonho: casou-se oficialmente com seu companheiro Juan.  A festa foi em Miami e a cerimonia em Massachusetts, onde o casamento gay é legal.

Felipe, no dia do casamento, ao lado do marido, Juan Rodriguez

Felipe com a irmã Claudia, na festa de seu casamento com Juan

“Eu sinto, no meu coração, muita gratidão. Eu tive oportunidade de ter uma mãe muito boa, duas irmãs que me amam e que me ajudaram a ver a vida de uma forma melhor”, diz.  “A cada etapa de minha vida, tive sempre um anjo que caiu do céu, do nada, e conseguiu me ajudar naquele período.”

E agora, Felipe sente que é sua vez de ser esse anjo para milhares de pessoas injustiçadas.

“Embora o mundo inteiro diga que temos que ser individualistas, eu sempre aprendi o contrário.  Só vou conseguir melhorar minha vida pessoal se a comunidade inteira também estiver bem”.

E Felipe segue sua luta.

Presente de casamento do artista Julio Salgado. "Amor não é ilegal".

Serviço:

O Consulado-Geral do Brasil em Miami tem informações detalhadas em português sobre a “Ação Diferida”, o programa do governo norte-americano para a suspensão temporária de deportação de jovens imigrantes.  Veja no link da pagina de noticias.

Para informações de como obter uma carteira de matrícula consular, clique aqui.  O documento é valido em qualquer lugar dos Estados Unidos e reconhecido pelo governo americano.

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terça-feira, 14 de agosto de 2012 Arte & Cultura, Cinema, Direto de Miami, Diversão, Entrevistas, Miami | 09:05

Falta de patrocínio não impede uma mato-grossense de continuar divulgando o cinema brasileiro em Miami, em grande estilo.

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Por Chris Delboni | Coluna Direto de Miami (http://diretodemiami.ig.com.br)
Fotos de Carla Guarilha

O Festival de Cinema Brasileiro de Miami completa 16 anos e, apesar da falta de grandes patrocínios, vai manter a qualidade e o padrão que o consagra.  Tudo isto por conta do amor de Viviane B. Spinelli e suas sócias, as irmãs Cláudia e Adriana Dutra. A crise econômica atingiu em cheio os negócios, mas não a garra, a dedicação e o empenho desse trio.

Spinelli diz que apesar de ter menos ajuda financeira, a edição deste ano continua com o apoio local e alguns patrocínios importantes, como do Consulado do Brasil em Miami, e não deixa nada a desejar aos outros festivais.

“O conteúdo do festival está lindo, e a gente está com um cinema maravilhoso com filmes belíssimos”, diz ela.  “Acho que é isso que vale no fim das contas”. E foi com esse mesmo espírito que deu início, em 1997, ao primeiro Brazilian Film Festival of Miami.

Viviane diz que sempre buscou desafios e nunca gostou de se acomodar em nada na vida.

Viviane na piscina de sua casa com Athena Von Claude, uma cadela da raça Pastor Alemão - capa branca, com um ano e meio e 50 kg. Foto de Carla Guarilha.

Com 15 anos, tinha um vida confortável em Cuiabá e um Mustang na garagem.  Mas queria conhecer o mundo e começou pelo Rio de Janeiro, onde morava sua avó Dilza Maria Curvo Bressane, hoje com 91 anos.

Viviane, em Cuiabá, ao lado de sua vózinha, dona Dilza, sua "segunda mãe", hoje com 91 anos. Album de família,

Queria estudar artes plásticas mas acabou cedendo as pressões da família e, com 17 anos,  começou a estudar arquitetura.  Mas, sua vida mudou mesmo quando foi estudar inglês na Califórnia e na volta passou uns dias em Miami visitando as amigas Cláudia e Adriana  – sim, as mesmas que hoje são suas sócias. Ela adorou a cidade e sabia que voltaria. Assim foi.

Assim que conseguiu, retornou a Miami para morar, e em seguida, as três amigas abriram a Inffinito Promotions, transformando um sonho em um dos eventos mais importantes da cidade.

“O Brasil ainda era um pouco visto pelo estigma de futebol e samba.  Ninguém falava do lado cultural, dos filmes, teatro, da cultura brasileira”, conta Spinelli.  “A gente pensou, vamos fazer um festival de cinema brasileiro para mostrar a cultura por um outro prisma”.

Viviane ainda se emociona ao lembrar do primeiro ano do festival.

“Foi uma repercussão muito bonita”, diz Spinelli.  “A gente não esperava”.

Cortesia Inffinito

Cortesia Inffinito

A edição de lançamento foi realizada no cinema Bill Cosford, da Universidade de Miami, em Coral Gables, onde passa muitos filmes experimentais, estrangeiros e documentários, voltados para um público intelectual e apaixonado por cinema.   Só que o mais novo evento da cidade na época contava com um diferencial: o “glamour” brasileiro.

Vieram especialmente para o ocasião nomes importantes da grande tela do Brasil, como Andrea Beltrão, Marieta Severo e Evandro Mesquita, e mostraram filmes premiados e celebrados, como “O Quatrilho”, de Fábio Barreto, “Carlota Joaquina, Princesa do Brasil”, de Carla Camurati, “O pequeno Dicionário Amoroso”, de Sandra Werneck, “Como Nascem os Anjos”, de Murilo Salles, e “Terra Estrangeira”, de Walter Salles e Daniela Thomas, entre outros.

“Às vezes, você tem umas ideias que não sabe o que vão dar, e dão certo”, diz Spinelli.  “A gente não tinha noção da dimensão que poderia tomar isso”.

O sucesso foi tanto que a prefeitura de Miami Beach convidou o grupo para fazer o segundo festival no Colony Theatre, na Lincoln Road, com a noite de estreia em um telão ao ar livre.

A sociedade das três amigas começou a crescer e hoje a empresa é dividida em três operações: Inffinito Núcleo de Arte e Cultura e Inffinito Eventos e Produções no Rio de Janeiro, onde Cláudia e Adriana moram atualmente, e Inffinito Foundation, em Miami, onde está Viviane.

“São 18 anos de parceria”, diz orgulhosa Spinelli, que cuida de toda a produção internacional.

Viviane no meio das sócias, Cláudia e Adriana. Cortesia Inffinito.

A Inffinito apresenta cerca de 10 festivais de cinema brasileiro no mundo, da América Latina à Europa, passando por Vancouver no Canadá e Canudos no Brasil.

Viviane conta que nunca esqueceu quando recebeu o primeiro grande patrocínio da Petrobras.  Diz que apareceu uma coruja na janela do escritório em Miami e, naquele momento, sabia que estava no caminho certo.

Ela acredita que ainda vai ter de volta os grandes patrocínios e aposta na força da letra F, que aparece em dose dupla no nome da empresa Inffinito, em palavras essências nesta história: filme, força e feminino.

“Acho que tudo na vida da gente é trabalho, realização e busca”, diz.  “Estou buscando ainda.  Não me sinto estagnada com 43 anos – não me sinto completa ainda”.

Spinelli nunca deixou de pintar ou perdeu sua paixão por arte.

Seu próximo desafio agora é abrir uma galeria de arte em Miami.

“A gente sempre tem que ter um sonho na gaveta”, diz. “Quando a gente para de sonhar, a gente para de ter razão para viver”.

Viviane com Samantha Jones, sua gata, ao lado de um de seus quadros. Ela tem um pequeno atelier em casa e ainda sonha em abrir uma galeria de arte em Miami. Foto de Carla Guarilha.

O Festival de Cinema Brasileiro de Miami acontece entre os dias 18 e 25 de agosto. Serão exibidos 22 filmes, entre curtas e longa metragens da Mostra Competitiva no Colony Theatre e Mostra Paralela no Miami Beach Cinematheque.

O festival vai abrir com uma programação gratuita do “O Palhaço”, de Selton Mello, no paredão ao ar livre no New World Symphony, em Miami Beach.

Para mais informações ou compra de ingressos visite http://www.brazilianfilmfestival.com/miami/2012/miami2012_en.html

*No vídeo, Viviane fala da relação com sua avó, sua grande inspiração:

Festival de Cinema Brasileiro de Miami completa 16 anos. from Chris Delboni on Vimeo.

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